Em resumo
  • Número de lote, nota fiscal e etiqueta do produto são a base para rastrear a cadeia de fornecimento em caso de complicação estética.
  • Fabricante, importador e fornecedor respondem solidariamente por defeito ou vício do produto (CDC arts. 12 e 18).
  • O paciente pode escolher processar a clínica, o profissional, o distribuidor ou o fabricante — ou todos ao mesmo tempo.
  • A recusa da clínica em informar a origem do produto, quando questionada, é um indício que pesa contra ela.
Nota sobre a pesquisa: não foi localizado, em pesquisa no STJ, TJPR e TJSP, precedente específico que atribua consequência autônoma à ausência de número de lote em produto estético. O que existe, e é sólido, é o arcabouço geral do CDC sobre responsabilidade solidária de fornecedores por vício e defeito de produto — que é a base jurídica para exigir e usar essa informação como prova.

Quando uma complicação estética levanta suspeita sobre o próprio produto — e não apenas sobre a técnica de quem aplicou —, a via de acesso à responsabilização passa por um dado muitas vezes negligenciado no calor do procedimento: o número de lote, a nota fiscal e a etiqueta de origem. Sem eles, a discussão fica restrita à conduta do profissional; com eles, é possível alcançar também o fabricante, o importador ou o distribuidor.

Por que o lote e a nota fiscal importam

O número de lote identifica o ciclo específico de fabricação do produto, permitindo relacionar reclamações e possíveis desvios de qualidade a um mesmo grupo de unidades. A nota fiscal, por sua vez, comprova a compra formal e a cadeia de distribuição — se veio de um distribuidor autorizado ou de um canal irregular. Juntos, esses dois elementos permitem reconstruir de onde veio o produto usado no procedimento, o que é decisivo quando a hipótese em discussão é de produto falsificado, vencido, mal armazenado ou fora de especificação.

Solidariedade entre fabricante e fornecedor

O art. 12 do CDC estabelece que o fabricante, o produtor, o construtor e o importador respondem, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados por defeitos decorrentes de projeto, fabricação, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos. Já o art. 18 estende a responsabilidade solidária aos fornecedores de produtos de consumo em geral pelos vícios que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo. Na prática de um caso estético, isso significa que a clínica, o distribuidor do insumo e o fabricante podem ser chamados a responder pelo mesmo dano.

O paciente pode escolher contra quem processar

STJ — AgInt no AREsp 1.703.445/MG (4ª Turma, j. 08/02/2021)

O STJ reafirmou que, no caso de vício do produto, cabe ao consumidor escolher contra quem ajuizar a ação — fabricante ou fornecedor —, em razão da solidariedade estabelecida pelo Código de Defesa do Consumidor entre os integrantes da cadeia de fornecimento.

Essa orientação é relevante porque libera o paciente de ter de identificar, com precisão, qual elo da cadeia falhou antes de ajuizar a ação: pode processar quem for mais acessível — normalmente a clínica ou o profissional — e deixar que a discussão sobre a responsabilidade interna entre fornecedor e fabricante se resolva, se for o caso, por ação de regresso entre eles.

O que preservar desde já

Se a clínica se recusa a informar a origem do produto

A recusa, total ou parcial, em informar a origem do produto quando formalmente questionada é, por si, um dado relevante para a ação judicial: pode ser interpretada como indício de irregularidade e, no processo, pode justificar pedido de exibição de documentos (nota fiscal de compra do insumo pela clínica, contrato com o distribuidor) para reconstruir a cadeia de fornecimento com o auxílio do Judiciário.

Dr. Vitor Benin (OAB/PR 72.996) atua em ações de indenização por complicações estéticas envolvendo produtos de origem duvidosa ou irregular. Conheça a trajetória completa →

Conclusão

O número de lote e a nota fiscal do produto usado em um procedimento estético não são detalhes burocráticos: são a chave para estender a responsabilidade além da clínica, alcançando fabricante, importador ou distribuidor, quando o problema está no próprio insumo. Preservar essa informação desde o primeiro atendimento — ou exigi-la formalmente quando surge suspeita — fortalece qualquer ação futura, mesmo sem um precedente específico já consolidado sobre o tema.